Usuarios da semana...

sábado, 24 de março de 2007

Bucolismos do Amor...


Maria Dorotéia Joaquina de Seixas foi noiva e a musa inspiradora do poeta inconfidente Tomás Antônio Gonzaga (Dirceu), com o qual trocou correspondência durante o período de sua prisão. Conforme Inventários dos próprios bens e testamento redigido por ela própria, em 1840, pertencia às elites de Vila Rica. Possuía duas casas: um sobrado à rua Direita e uma residência de um só pavimento, com quintal todo murado em pedra, próxima ao chafariz de Antônio Dias. Não se casou, falecendo em 1853.
Numa madrugada onde se tem a solidão por compania que esfria e entristece o coração...
O bucolismo do século 18 vem me acalentar nos versos de Dirceu...

Lira II

Pintam, Marília, os poetas

A um menino vendado,

Com uma aljava de setas,

Arco empunhado na mão;

Ligeiras asas nos ombros,

O terno corpo despido,

E de Amor ou de Cupido

São os nomes, que lhe dão.


Porém eu, Marília, nego,

Que assim seja o Amor, pois ele

Nem é moço nem é cego,

Nem setas nem asas tem.

Ora pois, eu vou formar-lhe

Um retrato mais perfeito,

Que ele já feriu meu peito;

Por isso o conheço bem.


Os seus compridos cabelos,

Que sobre as costas ondeiam,

São que os de Apolo mais belos;

Mas de loucura cor não são.

Têm a cor da negra noite;

E com o branco do rosto

Fazem, Marília, um composto

Da mais formosa união.


Tem redonda e lisa testa,

Arqueadas sombrancelhas,

A meiga, a vista honesta,

E seus olhos são uns sóis.

Aqui vence Amor ao Céu:

Que no dia luminoso

O céu tem um sol formoso,

E o travesso Amor tem dois.


Na sua face mimosa,

Marília, estão misturadas

Purpúreas folhas de rosa,

Brancas folhas de jasmim.

Dos rubis mais preciosos

Os seus beiços são formados;

Os dentes delicados

São pedaços de marfim.


Mal vi seu rosto perfeito,

Dei logo um suspiro, e ele

Conheceu haver-me feito

Estrago no coração.

Punha em mim os olhos, quando

Emdtendia eu não olhava;

Vendo que o via, baixava

A modesta vista ao chão.


Chamei-lhe um dia formoso;

Ele, ouvindo meus louvores,

Com um modo desdenhoso

Se sorriu e não falou,

Pintei-lhe outra vez o estado,

Em que estava esta alma posta;

Em quem me deu também resposta,

Constrangeu-me e suspirou.


Conheço os sinais; e logo,

Animado da esperança

Busco dar um desafogo

Ao cansado coração.

Pego em seus dedos nevados,

E querendo dar-lhe um beijo,

Cobriu-se todo de pejo

E fugiu-me com a mão.


Tu, Marília, agora vendo

De Amor o lindo retrato,

Contigo estarás dizendo

Que é este o retrato teu.

Sim, Marília, a cópia é tua,

Que Cupido é Deus suposto:

Se há Cupido, é só teu rosto,

Que ele foi quem me venceu.

Trecho do romance 'Marília de Dirceu', autor Tomás Antonio Gonzaga


E se quiser baixar esse romance é clicar no link abaixo e boa leitura:

http://virtualbooks.terra.com.br/freebook/port/marilia_de_dirceu.htm