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sexta-feira, 30 de novembro de 2007

FALTAM 8 DIAS...



RDP em Aracaju.

Por Adelvan Kenobi.

Há aproximadamente 13 anos atrás, as ruas de Aracaju foram tomadas por uma turba ensandecida sedenta de vingança. Tratava-se dos indignados potenciais expectadores do show do Ratos de Porão que iria acontecer naquela noite, no Ginásio de Esportes Constancio Vieira, mas que, por conta da quebra de contrato do “produtor” para com a banda (soube-se depois), não aconteceu. O tal “produtor” já tinha aprontado algo parecido com a banda PUS, mas se deu bem, a banda acabou tocando de graça no dia seguinte em respeito a seu publico e ficou tudo por isso mesmo. Só que nessa noite as coisas iriam ser diferentes. Ele tinha uma loja especializada em rock alternativo no centro da cidade, e foi pra lá que a turba se dirigiu. A loja foi completamente destruída e saqueada. O “produtor” sumiu da cidade, reapareceu, para finalmente sumir de uma vez. Fugiu. Desapareceu. Escafedeu-se. E Ratos de Porão em Aracaju virou uma espécie de lenda urbana. Durante esses 13 anos a cidade ficou com o estigma de ser uma das únicas capitais brasileiras nas quais a banda nunca se apresentou.

Pois o tabu está para ser quebrado. O tempo passou, o mundo deu voltas. Os tempos são outros, Aracaju hoje é outra cidade. Novos produtores apareceram, festivais aconteceram, a cena rock underground cresceu, apareceu, voltou a encolher mas permanece, inconstante porém viva. E finalmente o Ratos de Porão vai se apresentar, pra valer, no dia 08 de dezembro de 2007, na ATPN. E vem num excelente momento, divulgando o seu ultimo disco, HOMEM INIMIGO DO HOMEM – um trabalho que resgata as origens “crossover” da banda e é, ouso dizer, é seu melhor disco desde o Brasil, de 1989. É também o 14_ disco de estúdio de uma carreira que começou por volta de 1981, quando João Carlos Molina Esteves, o Jão, resolveu montar uma banda punk/Hardcore com seu primo Roberto Massetti (o Betinho, baterista) e o amigo Jarbas Alves (o Jabá, baixista).

Em 1983, já com Mingau na guitarra, gravaram seu primeiro registro musical na coletânea SUB e participaram do festival O Começo do Fim do Mundo, que reuniu vinte bandas no Sesc Pompéia, em São Paulo, e se tornou um marco do movimento punk no Brasil. Interessante notar que João Gordo, seu célebre (e, mesmo a contragosto, celebridade) vocalista, só entrou na banda em 1983 – a tempo de gravar seu primeiro LP, o clássico “Crucificados pelo Sistema”.

Em 1986, deixaram de lado o purismo punk e gravaram o primeiro grande disco do estilo “crossover” (misto de punk com metal) no Brasil, “Descanse em Paz”. Com um clima pra lá de sombrio (a começar pela capa, que mostrava a foto de uma senhora morta com a boca cheia de algodão em seu caixão), o álbum tinha nítidas e assumidas influencias de thrash metal e de bandas como Venom e Celtic Frost. Por conta desse “namoro” com o metal acabaram ficando amigos dos componentes do Sepultura, banda então em plena ascensão no cenário Metálico nacional e internacional. Seu trabalho seguinte, “Cada Dia mais sujo e agressivo”, de 1987, saiu pela mesma gravadora que lançou o Sepultura para o mundo, a Cogumelo Records de Belo Horizonte, e aprofundou ainda mais as influencias do metal, com uma clara e impressionante evolução da banda em termos técnicos e até mesmo a participação, em uma das faixas, do guitarrista Andréas Kisser, do Sepultura, num solo de guitarra. Por conta de “sacrilégios” como estes, passaram a ser eternamente hostilizado pela ala mais sectária do movimento punk. “Traidor” passou a ser uma palavra constantemente associada a Ratos de Porão – chegaram, inclusive, a compor uma musica ironizando o fato. Independente disso, ganharam notoriedade também no exterior e o disco seguinte, “Brasil” (1989), foi lançado pela Roadrunner, mesma gravadora do Sepultura, e gravado em Berlim.

Com “Brasil”, o Ratos de Porão conseguiu aliar finalmente técnica e rapidez num som nitidamente Hardcore, despojado das “gorduras” herdadas do namoro com o metal. É uma verdadeira obra-prima do gênero em todo o mundo. Depois de seu lançamento a banda passou a ter uma carreira internacional, tocando regularmente na Europa e ocasionalmente nos Estados Unidos e alguns pontos obscuros do globo. Ainda pela Roadrunner lançaram os discos ANARKOPHOBIA (1990, retornando ao crossover e às influencias de thrash e até mesmo de rap, em seu maior sucesso, a faixa “Sofrer” – sucesso que os levou a tocar em lugares antes impensáveis como programas populares de auditório na televisão), JUST ANOTHER TIME IN MASSACRELAND (1993, um disco bastante diferente dos padrões da banda, mais melódico e totalmente cantado em inglês) e os dois discos de cover FEIJOADA ACIDENTE (1995), nos quais fazem uma homenagem ás bandas brasileiras e estrangeiras que os influenciaram.

Desfeito o “casamento” com a Roadrunner, lançam em 1997 “Carniceria Tropical”. A partir daí a banda assume uma sonoridade mais diretamente influenciada pelo crustcore europeu, sem contudo abandonar suas características próprias. Foi assim nos discos seguintes, “Guerra Civil Canibal”, “Sistemados pelo Crucifa” (uma regravação do primeiro disco) e “Onisciente coletivo” – este também lançado por outra gravadora estrangeira especializada em metal, a Century Media. Ao longo de sua carreira lançaram ainda os discos “Periferia 1992”, com gravações toscas dos primórdios da banda, 3 discos ao vivo (RDP/Cólera Ao Vivo – 1985, RDP VIVO – 1992, e AO VIVO NO CBGB, de 2003) e uma infinidade de participações em coletâneas ao redor do mundo. A formação da banda manteve-se relativamente estável ao longo do tempo, com uma rotatividade maior entre os baixistas. Atualmente conta com o Gordo nos vocais, Juninho no baixo, Boka na bateria e Jão, o único membro fundador remanescente, na guitarra.